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A reação das crianças ao me verem com ELA

Quando uma criança me vê pela primeira vez, imediatamente percebe que eu sou uma pessoa completamente diferente de todos os outros seres humanos que ela já viu na vida. Afinal, eu ando em uma cadeira de rodas motorizada super incrementada, praticamente não me mexo, escrevo com os olhos, falo por uma caixa de som, tenho um tubo de plástico saindo do meu pescoço conectado a um equipamento que respira por mim, e não como pela boca, mas sim por um buraco de plástico na barriga. Na imaginação dos pequenos, sou uma espécie de cyborg, algo de ficção científica, alguém tão indecifrável que só no último mês duas vezes crianças perguntaram se sou adulto ou criança, apesar de ter mais de 1,80 m de altura e passado dos 40 anos. Muitas vezes perguntaram se sou um super-herói com superpoderes, já que escrevo com os olhos.

Crianças são espontâneas, sinceras, curiosas e deixam transparecer tudo. Quase sempre que eu passo com minha cadeira motorizada em um lugar público, como restaurante, parque ou shopping, muitas crianças ficam totalmente hipnotizadas, olhando fixamente pra mim enquanto eu estiver em seu campo de visão. Já os adultos geralmente notam minha presença apenas quando seu filho ou filha empacou por estar hipnotizado ao me ver passar. Então pais, atenção: se vocês estiverem perto de mim ao cruzarem uma rua ou lugar fechado, as chances de perderem seus filhos se multiplicam rs. Claro que algumas crianças têm medo de alguém tão diferente, mas geralmente ficam muito mais curiosas que medrosas. Raramente uma criança fica indiferente ao me ver, mas quem convive comigo assim desde que nasceu, age com naturalidade por estar acostumada. 

Eu tive a ideia de escrever sobre este tema durante um atendimento com minha fisioterapeuta Gabi, pois nesse dia trouxe sua filha Rebecca, de 4 anos, para a sessão. A menina chegou, falou “Oi tio Ricky”, me viu a cumprimentar com as sobrancelhas, depois falar no computador, e foi brincar com nossa cachorrinha. Depois voltou ao quarto e, de forma espontânea, começou a fazer carinho no meu braço. E na hora de ir embora perguntou pra Gabi: tio Ricky não vai pro tablet me falar tchau? Becca, que convive desde que nasceu com os pacientes da mamãe, acha absolutamente normal existirem pessoas que não se mexem, que usam respirador e que falam pelo computador.

Geralmente os filhos dos profissionais de saúde que me atendem agem com naturalidade, por ouvirem as histórias e eventualmente encontrarem com pacientes. Eu conheço quase todos, sendo que a última foi a Antonnela, uma menina de 7 anos super esperta e autêntica, filha da técnica de enfermagem Karol. Depois que ela descobriu que quando eu levanto sobrancelha significa sim, e quando eu fecho os olhos significa não, passou a interagir direto comigo e a fazer um monte de perguntas. Ainda falou que sou bonito e é bem carinhosa comigo.

O melhor exemplo de crianças acostumadas às minhas limitações físicas é provavelmente o das minhas sobrinhas, principalmente a mais velha: Nicole. Ela desde bebê se acostumou a deitar nos meus braços e passar horas comigo. Quando foi crescendo, passou a ajudar minhas fisioterapeutas, compreender meus sinais e entender muito bem como eu funciono, tanto que uma vez desconectou o circuito da minha traqueia, que acopla ao ventilador mecânico, e ela o conectou imediatamente, ficando ofegante de nervosa por saber que eu dependo disso para respirar e para viver. Quando ela tinha 5 anos e minha outra sobrinha Nina, tinha 2, minha irmã Lili e o Alê se mudaram com elas para Portugal. De lá pra cá vieram todos os anos de férias para o Brasil. Na primeira vez que a família toda veio nos visitar, eu ouvi alguém perguntar pra Nicole onde preferia morar e por quê. Ela respondeu Brasil, por causa do tio Ricky e dos avós. Hoje, passados 7 anos convivendo bem menos, a resposta certamente seria outra, mas mostra como éramos próximos nos seus primeiros anos, a despeito das minhas limitações físicas. Já a Nina não era tão apegada a mim quando pequena e se mudou pra longe muito nova, mas nas últimas vezes que vieram ao Brasil se mostrou mais próxima, atenta, curiosa e preocupada comigo. Neste ano, além de assistir filmes com elas e sairmos para diferentes lugares, até STOP joguei com minhas sobrinhas.

Todo ano eu comemoro meu aniversário em festas com meu amigo Pipo, que é apenas uma semana mais velho que eu, e sempre filhas dos meus amigos ficam super curiosas, querendo ficar ao meu lado e fazendo muitas perguntas. Já a Diana, filha do Pipo com a Flávia, que me vê com certa frequência, no aniversário deste ano chegou e espontaneamente me abraçou, apesar das dificuldades de se abraçar alguém em uma cadeira de rodas. Na festa de 2025 duas outras meninas ficaram bastante tempo perto de mim, interagindo e tirando dúvidas sobre como eu funciono: a Madalena – filha do Du Dias, amigo de infância que de tempos em tempos colabora no Mobilize – e a Renatinha, filha do amigo Rick Maluf. Já na festa do ano passado, fiquei bem próximo do Gabriel Henrique, que já é adolescente, filho da minha prima Giuliana, e no ano anterior passei um tempão conversando com a filha do meu amigo Sérgio, da turma da praia, e depois com a Zazá, caçula do Renatão Zanoni. Ela e os outros filhos dele, Matheus e Cecília, assim como os filhos do Renato Miralla e da Ciça, João e Alice, que convivem desde que nasceram com este “tio estranho”, sempre foram amorosos comigo. Os dois Renatos, assim como Pipo, moraram comigo em Barcelona.

Ainda em relação aos amigos da faculdade (FGV), um deles me convidou para ser padrinho do seu primeiro filho e colocou o nome de Henrique em minha homenagem. Com o apelido Kike, o filho do Luiz e da Teresa nasceu quando eu completei um ano de diagnóstico. Agora não é mais criança, mas vou copiar abaixo um texto que eu escrevi quando ele era pequeno: “Luiz veio aqui em casa. Também veio meu afilhado Henrique, filho dele, que está com 4 anos. Você precisa ver como ele é carinhoso comigo. Ele várias vezes faz desenhos e traz pra mim, quando ele chega já vem escalando minha cama para se sentar ao meu lado e falar comigo ou pedir para eu colocar desenho, muitas vezes ele me dá a mão e sempre reclama de ir embora. Como ele vem aqui desde que nasceu, encara com total normalidade minhas limitações. A postura e o carinho dos pais também ajudam. Eu vejo que crianças assim tem muita chance de se tornarem adultos mais tolerantes e atentos ao próximo.” Eu também tenho uma afilhada, a Mirele, filha da Rosinha, que trabalhou aqui. A cerimônia foi realizada em 2010, quando eu já estava na cadeira de rodas. Eu e minha irmã somos padrinhos da Mirele e meus pais são padrinhos da irmã gêmea dela, Michele. Não sou o único com ELA que tem uma relação bonita com os afilhados. Malu Ribeiro, que entrevistei há alguns meses, escreve textos emocionantes sobre o amor de seus afilhados no blog Campo Singular.

Antes de encerrar, quero contar mais histórias interessantes envolvendo crianças. Um dia recebi a visita do colaborador do Mobilize de Brasília, o paraense Uirá, com sua esposa e os dois filhos. Eles subiram na minha cama e, curiosos, queriam saber como o tio Ricky “funcionava”. Aquela foi a melhor definição de uma mente pueril para compreender o complexo ser humano conectado a tubos e geringonças tecnológicas jamais vistas por eles. Como um brinquedo novo, em poucos minutos, eles observaram e, depois, começaram a “fuçar” o tio Ricky para descobrir seus mistérios. A pergunta “Como o Ricky funciona?” virou até capítulo do meu livro Movido pela Mente e algo dito frequentemente pela minha família ao explicar as minhas particularidades para as pessoas. Uns anos atrás, minha amiga Bel, fundadora do Lar Casa Bela, sempre trazia crianças do abrigo para me visitar. Uma menina se identificou tanto que me perguntou se eu podia ser seu padrinho. No primeiro semestre deste ano, eu fui duas vezes à ABCD Nossa Casa, ONG apoiada pela EY, realizar atividades educativas. É incrível como as crianças e adolescentes atendidos demonstram carinho e ficam em volta de mim fazendo um monte de perguntas. A reação é muito parecida sempre que faço palestras em escolas.

Essas vivências com crianças me mostram que a curiosidade inocente, o carinho espontâneo e a naturalidade com que muitas delas reagem à minha presença são, na verdade, lições valiosas para todos nós. Quando olham para mim sem preconceitos, enxergando além das limitações físicas e reconhecendo o ser humano, o tio, o amigo que existe aqui, elas nos ensinam o que é, de fato, inclusão. Talvez o mundo precise olhar mais com os olhos das crianças — olhos que não julgam, mas buscam entender, acolher e se conectar. Se conseguirmos preservar esse olhar em nossa jornada adulta, daremos um passo importante rumo a uma sociedade mais sensível, empática e verdadeiramente humana.

Respostas de 5

  1. Excelente que así sea, era de imaginar que la inocencia de los niños nunca tiene maldad y siempre tiene mucha curiosidad, los niños también son capaces de conocer más de lo que se ve y saben que tu interior es mucho más brillante de lo que se puede imaginar un adulto.
    Maravillosa experiencia con niños, lástima que estemos tan lejos como para que compartas con los hijos de Fede, ellos te quieren mucho por lo tanto que su papá les habla de ti…
    Un abrazo enorme primito, eres mi mejor ejemplo de vida, te quiero muchísimo

    1. Conheci o Ricky em um dos post’s da Associação dos Ex-Alunos da Fundação Getulio Vargas. E tive oportunidade de visitá-lo pouco tempo depois.

      Suas limitações físicas desaparecem poucos minutos depois do início de um papo. Sempre sugere alguma coisa criativa e inovadora, como esta publicação de suas experiências.

      De fato; para a ELA, com certeza, o Ricky é um “osso duro de roer”!

  2. Ótima ideia de fazer este artigo, Ricky!
    Muito interessantes as reações das crianças. E você falou uma frase que define isso tudo: “Talvez o mundo precise olhar mais com os olhos das crianças – olhos que não julgam, mas buscam entender, acolher e se conectar”.
    E sem preconceitos.

  3. Muito legal bom o texto Ricky! Sem duvida, aquela frase que “sempre aprendemos com as crianças”, é mais do que nunca uma verdade nesse texto.
    E sim, vc é aqui em casa o Tio Ricky Ribeiro que sempre fez parte da vida deles.
    Adorei mesmo….

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