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A aventura que é andar de cadeira de rodas no metrô

A primeira vez que eu andei de cadeira de rodas no metrô também foi uma das primeiras vezes que andei de cadeira de rodas. Quando contei ao meu amigo Luiz sobre a minha vontade de ir à Virada Cultural, no centro de São Paulo, ele alugou uma cadeira de rodas para me levar. Eu havia sido diagnosticado com ELA há 8 meses e caminhava com certa dificuldade. Então um evento com multidão poderia ser perigoso, com alto risco de quedas.

Eu e Luiz fomos de metrô para a Virada Cultural e, já na primeira estação, um funcionário treinado conduziu a cadeira pela escada rolante. Quando chegou na segunda estação, Luiz já foi me levando em direção à escada rolante, sem acionar um profissional do metrô. No início, senti medo, pois ele nunca havia feito isso antes, mas depois curti a adrenalina. Naquela noite, fomos a diversos lugares, encontramos amigos e a turma da faculdade (GV) no Parque da Luz, comigo sentado, Luiz me empurrando e nós nos divertindo.

Depois disso, eu andei algumas vezes de metrô com uma cadeira de rodas comum, mas usando os elevadores das estações, que estavam desativados durante aquela Virada Cultural por questões de segurança. Eu ainda tive uma nova experiência com a cadeira de rodas em escada rolante ao visitar o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. No metrô, uma vez fiz uma grande aventura com a prima Flávia e minha cuidadora na época, a Jack. Fomos da estação Carapicuíba do trem até a rede de metrô e depois ao Centro Cultural São Paulo, na estação Vergueiro. Também andei na rede metroviária de São Paulo no Dia Mundial sem Carro e em outras ocasiões.

Em 2012 fiz a traqueostomia e parei totalmente de sair de casa. Achei que nunca mais voltaria a circular pela cidade, muito menos de metrô, mas voltei a sair graças a uma cadeira de rodas motorizada.

Aventuras com a Permobil

Desde que chegou a cadeira de rodas motorizada Permobil F3, em 2017, conseguida por meio de uma campanha de arrecadação, eu tinha curiosidade para saber se seria possível circular com ela no metrô. Afinal, a cadeira sozinha pesa 200 kg e ocupa um espaço enorme, não cabendo na maioria dos elevadores. E andar de escada rolante com esse trambolho nem passava pela minha cabeça. Em 2022, no dia do meu aniversário, a técnica de enfermagem Débora topou fazer este teste comigo e, apesar do aperto no elevador, deu certo.

Dois anos mais tarde, novamente com a Débora, mas também com a namorada Sol e com meu fiel escudeiro Ronei, fomos ao bairro da Liberdade de metrô, a partir da estação Consolação. Como o vão que separa a plataforma do vagão era grande, o Metrô disponibilizou uma rampa que permitiu entrar no vagão. Estava tudo indo bem mas infelizmente desta vez não foi uma experiência tão positiva. Ao desembarcar do vagão em uma das estações, o único elevador que tinha para subir da plataforma para o andar intermediário era menor que os outros e tinha uma estrutura menos robusta, parecendo mais uma plataforma elevatória que um elevador. Tivemos que sentar a cadeira motorizada totalmente para entrar no elevador e, mesmo assim, sobrou um lugar minúsculo para o Ronei, que ficou todo torto me segurando para eu não cair pra frente da cadeira. Começamos a subir e, um pouco antes de chegar lá em cima, o elevador enguiçou, provavelmente por não suportar o peso da cadeira motorizada. Ficamos aproximadamente 10 minutos parado. Por sorte eu me senti muito bem da parte respiratória, pois eu estava trancado com o Ronei, e não com a técnica de enfermagem, para me socorrer em caso de intercorrência. Corri um risco. Ainda bem que as paredes do elevador eram transparentes, facilitando a comunicação com Débora, Sol e a equipe do Metrô.

Depois de um tempo, disseram que o elevador havia quebrado e não conseguiria terminar de subir, apenas descer novamente para a plataforma. Voltamos à estaca zero, mas agora sem a opção do elevador. Restava a escada comum e a escada rolante. O pessoal do Metrô disse que ia desligar a escada rolante para o Ronei posicionar a Permobil no início da escada e, quando ele desse OK, ligariam novamente. Eu não fazia ideia que seria possível andar de escada rolante com uma cadeira motorizada grande e pesada, mas falaram que estavam acostumados com esse tipo de operação. Foi um pouco estranho, com alguns trancos, mas Ronei subiu comigo e soube conduzir bem a cadeira ao sair da escada e chegar no andar superior. Depois disso, fiquei um pouco receoso em andar de metrô, apesar de ser muito fã desse modo de transporte.

A mais recente aventura

Passei quase dois anos sem andar de metrô, até maio de 2026. Mas antes de contar como foi esta experiência, vou falar o que aconteceu antes, pois talvez tenha sido uma aventura ainda maior. Eu recebi a visita do meu amigo americano Arthur Brum, filho de pais brasileiros, que conheci na infância ao morar nos Estados Unidos, e quis mostrar pra ele a cidade de São Paulo. Um dos dias, eu, ele, a Sol e a técnica de enfermagem Michelle saímos caminhando (eu rodando) do apartamento no Jardim Paulista, descemos a Rua Augusta sentido centro, paramos no Parque Augusta para recarregar meus equipamentos, atravessamos a Avenida São Luís, mostrei para o Arthur o COPAN, e chegamos na Avenida Ipiranga (Alguma coisa acontece no meu coração…), mais precisamente na altura da Praça da República. Já era noite quando paramos para comer e trocar plantão, onde assumiu a Ana Isabel.

No total, andamos aproximadamente 20 quarteirões, no ritmo lento de uma cadeira de rodas motorizada que enfrenta irregularidades no piso, buracos, obstáculos e outros problemas de acessibilidade. Duas vezes tivemos que circular pela rua, no meio dos carros, para desviar de trechos intransitáveis da calçada. O ponto positivo foi que todas as esquinas do caminho estavam dotadas de rampas nos cruzamentos. Mas na hora de atravessar, o semáforo de pedestres fechava em poucos segundos, trazendo insegurança não só pra mim, mas também para idosos e mesmo adultos saudáveis.

Voltar tudo a pé, tarde da noite, agora na subida, era impensável. A solução era o metrô, mas será que eu ia passar o sufoco da última vez? Pegamos o elevador na Praça da República e, mesmo relativamente pequeno, coube minha cadeira, Sol e Ana. Era bem melhor que o elevador da última vez, mesmo assim deu problema. Ele parou e não abriu a porta. Acionamos o interfone e fomos atendidos imediatamente. Na hora, mandaram um funcionário para nivelar o elevador com o piso do andar, e abrir a porta manualmente. Foi rápido e logo estava resolvido. Andamos pela estação acompanhados por dois funcionários, descemos por outro elevador até a plataforma, e embarcamos no primeiro vagão do metrô, que é destinado a pessoas com deficiência. Desembarcamos na estação Paulista e dois funcionários nos aguardavam. Deu tudo certo, foi uma ótima experiência e o ponto alto foi a forma como fomos tratados pelos funcionários da empresa que opera a linha 4 do metrô: todos muito simpáticos e preparados. Estou pronto pra próxima.

Conclusão

Mais do que uma sequência de aventuras, estas experiências mostram como a acessibilidade ainda é um caminho em construção. Ao longo dos anos, encontrei funcionários preparados, soluções criativas e pessoas dispostas a ajudar, mas também enfrentei falhas de equipamentos, limitações de infraestrutura e situações que poderiam ter colocado minha segurança em risco. Para quem usa cadeira de rodas, especialmente uma cadeira motorizada de grande porte, cada deslocamento exige planejamento, confiança e uma boa dose de coragem.

Mesmo assim, continuo acreditando no transporte público como ferramenta de inclusão e liberdade. Cada viagem bem-sucedida representa muito mais do que ir de um ponto a outro da cidade: é a possibilidade de trabalhar, encontrar amigos, conhecer lugares e exercer plenamente o direito de ir e vir. Espero que, no futuro, andar de metrô em cadeira de rodas deixe de ser uma aventura e se torne apenas o que deveria ser desde sempre: uma experiência simples, segura e acessível para todos.

Assista o vídeo da minha aventura!

Respostas de 15

  1. Ricky eu já sabia desse último passeio, mas não me contaram todas essas aventuras!
    Vocês são muito corajosos!!! Bjs

    1. Oi madrinha. Muito mérito pra Sol, que pilotou a cadeira o tempo todo, pra enfermeira Michelle e pro Arthur, que fizeram todo o caminho a pé.

  2. Parabéns primo Ricky, é uma ótima e corajosa iniciativa circular pelas ruas utilizando o Metrô, não só pelo passeio, mas também para poder constatar ao vivo todos os problemas de acessibilidade que ainda existem pela cidade.

  3. Eu lembro da saga da virada cultural! Encontrei vocês no metrô. Mas foi uma noite super divertida. Se não me equivoco, paramos para ver um show da Sol na Júlio Prestes.

  4. Blog maravilhoso, Ricky.
    Primeiro, a sua vontade e coragem de fazer o passeio em tais condições.
    Segundo, a sua credibilidade no transporte público de São Paulo.
    Um passeio desse aqui no Rio é inconcebível.
    _Thelma (prima)_

  5. Adorei as aventuras, mas como você mesmo disse, não eram para ser aventuras, e sim um direito de ir e vir.

  6. Parabéns pelo relato sobre a experiência de usar o metrô em uma cadeira de rodas. Ele certamente ajudará muitas pessoas, pois aponta com clareza as dificuldades enfrentadas e contribui para uma maior conscientização sobre acessibilidade

  7. Ricky
    Muito inspiradoras, divertidas e lindas as suas histórias. Fonte de inspiração para todos.
    Movido pela mente. Sua mente é luz para o mundo.
    Parabéns
    Ingrid

  8. Ricky, você me orgulha e me emociona a cada aventura! Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver…!

  9. EU lembro qdo soube da doença, foi um abalo para toda a familia,mas o Enrique deu força a todos imprecionante a ,nunca os vimos de mal humor ou revoltado com a vida ao contrario seguendo a sua luta,um exemplo de alma

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